29/3/2021 - Saúde mental: sintomas alertam para problemas graves, mas que têm solução

   Desânimo, oscilações de humor e insônia são alguns dos sinais de alerta para a saúde mental e que, ocorrendo com frequência, podem desencadear problemas graves, como depressão, transtornos de personalidade e até dependência química, se não receberem a devida atenção. Em tempos de pandemia, com o sentimento de falta de controle diante das incertezas, muitas pessoas estão sofrendo, inclusive pacientes em tratamento de câncer. Mas tem solução, segundo a psicóloga clínica do Hospital Amaral Carvalho (HAC) Monique Moya.
A profissional adianta: o importante é levar a sério, sejam sintomas pessoais ou observados em alguém próximo. “Não devemos classificar situações de raiva, tristeza sem motivo ou ansiedade, entre outras, como simples ‘frescura’, termo constantemente usado quando se tratam de questões psicológicas”.
É certo que, às vezes, esse mal-estar passa alguns dias e pode estar relacionado a fatores específicos, como um prazo vencendo no trabalho ou algo que afeta a família. “São inúmeros os motivos nas diferentes áreas da vida que podem causar mudanças na nossa rotina e, consequentemente, na nossa cabeça”, relata Monique e orienta, “quando os sintomas persistem ou não têm relação com nenhum acontecimento, talvez seja o momento de procurar ajuda”.
Além de estarem relacionadas ao mundo moderno, doenças psicológicas podem ser desencadeadas por fatores genéticos, problemas hormonais, frustrações e decepções. Algumas ainda permanecem sem causa conhecida. “Mas todas afetam diretamente o paciente e as pessoas à sua volta, no trabalho, nos estudos, nos aspectos pessoais e até físicos. Às vezes, a situação torna-se insustentável e pode levar a algo mais grave”, destaca.

Durante a pandemia
  A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que entre um terço e metade da população mundial exposta à pandemia pode sofrer alguma manifestação psicológica que pode se agravar, caso não seja feita intervenção de cuidados. “Depende do grau de vulnerabilidade de cada um, mas o medo de ser acometido por uma doença potencialmente fatal como a Covid-19 mexe com o psicológico das pessoas”, afirma Monique.
   Os problemas emocionais podem ocorrer também com crianças, já que elas não têm capacidade emocional para gerenciar experiências ruins. “A pandemia, como temos visto, tem causado estresse e frustrações aos pequenos, como não poder ir à escola, não encontrar os amigos e parentes, não poder brincar ao ar livre e, especialmente, o medo de ficar doente ou ver algum familiar com a doença. E devemos ficar atentos, pois a saúde mental infantil funciona como uma base para todas as aquisições que o cérebro fará nos anos seguintes”, recomenda.

E os pacientes oncológicos?
   Mesmo com toda tecnologia e tratamentos promissores, a palavra câncer ainda é relacionada a sofrimento, dor e mutilação, o que pode gerar sentimentos negativos, queixas emocionais e alterações de comportamento. A psicóloga do HAC esclarece que, após o diagnóstico, é comum sofrer impactos emocionais, mas é importante tentar manter-se no eixo e buscar ajuda de um profissional, pois tudo o que afeta as emoções pode afetar o corpo.
   Se o próprio tratamento, as perdas e pensamentos sobre o futuro preocupam os pacientes oncológicos, imagine durante a pandemia, com o isolamento social e medo de algo que possa agravar sua situação? E foi exatamente o que sentiu a dona de casa Claudete Botari de Moura, quando precisou retomar o tratamento oncológico durante a onda da COVID-19. “Eu já estava quase tendo alta de um tratamento de câncer de mama, em meados do ano passado, quando comecei a sentir uma falta de ar que levou ao diagnóstico de um câncer no pulmão. Tive que internar, fiquei três meses na Unidade de Terapia Intensiva. Não foi fácil. Fora o receio de pegar o Coronavírus e piorar”, lembra.
   Ela diz que está assustada com os casos da COVID-19 e só sai de casa para as sessões de quimioterapia e consultas no hospital, mas se sente muito segura no HAC. Para se distrair, Claudete está sempre se movimentando, procurando coisas pra fazer em casa. Seus passatempos preferidos são ler e colorir. “E tem funcionado muito bem. Assim, não fico matutando besteira”, brinca.
Com a família grande, a paciente conta que, mesmo isolada em casa, tem sempre alguém para conversar. “Somos em sete, então eles me dão muita força. Aliás, a lição que posso tirar dessa pandemia é que a família é a base de tudo e o apoio deles é o que mais importa”.

Ajuda
   Não existe uma definição oficial de saúde mental, no entanto, Monique explica que o termo está relacionado à forma como uma pessoa reage às exigências e desafios e como harmoniza suas ideias e emoções. Como em tudo na vida, é necessário ter equilíbrio também nas emoções. O primeiro passo é identificar fatores que influenciam o desequilíbrio interno e encontrar uma válvula de escape. “Teve uma semana intensa no trabalho? Tente se distrair,  fazer algo que gosta, cozinhar, praticar esportes. Momentos de prazer são favoráveis à produção dos hormônios de bem-estar, como dopamina e serotonina, e o bem-estar emocional ajuda a manter o foco nos desejos e a encarar os problemas cotidianos sem perder a racionalidade ou se desesperar”.
  Mas, se perceber sinais que não melhoram com o passar dos meses, procure atendimento psicológico. Se for com alguém próximo, seja empático, crie uma rede de apoio com pessoas queridas e tente sugerir a busca por atendimento profissional. “É um tema delicado e as tentativas podem não dar resultado. O processo é longo, talvez até eterno, mas sempre existem possibilidades de melhorar a cada dia”, completa. 

Autor: Ariane Urbanetto